quinta, 13 setembro 2012 15:47

Governador Manuel António Lino

Escrito por  Fernando Faria

Na extensa relação dos governadores civis do distrito da Horta surge-nos, como sucessor do progressista Dr. Francisco de Andrade Albuquerque, o regenerador Visconde José Bressane de Leite Perry que, pela segunda vez, se viu investido naquele cargo que ocupou por pouco tempo. Aliás, já aqui referimos que este político, com o apoio do sogro, o poderoso Dr. António Emílio Severino de Avelar, esteve à frente dos destinos do distrito em três ocasiões na derradeira década da vigência do regime monárquico em Portugal, além de haver sido, anteriormente, deputado às Cortes e presidente da Câmara Municipal. Foi brevíssima a sua segunda passagem pelo mais alto cargo da magistratura distrital (24 de Março a 17 de Maio de 1906), tendo-lhe sucedido um regenerador-liberal, já que o rei D. Carlos, aceitando o pedido de exoneração de Hintze Ribeiro, encarregara, a 19 de Maio, João Franco, presidente daquela emergente força partidária, de formar Governo, no qual contou com o apoio parlamentar do partido progressista.

Como era usual em todas as mudanças de Ministério, também João Franco procedeu à nomeação de governadores civis da sua confiança. No distrito da Horta, constituíra-se, no dia imediato à posse de João Franco, um centro regenerador-liberal que integrava figuras gradas dos velhos partidos do rotativismo – Francisco Pereira Ribeiro Jr., Manuel Agostinho Fernandes da Fonseca e António Carvalho Alua haviam sido regeneradores, ao passo que Florêncio José Terra Jr. e Manuel Emílio Tomás da Silveira eram progressistas dissidentes – e um conjunto de supostos independentes como Alberto Silveira Leal, João Pereira Gabriel, José Augusto de Sequeira, José Inácio de Cristo, Henrique Garcia Monteiro, Joaquim Cardoso Ayres Pinheiro, José Augusto Coelho de Magalhães, Luís Gonzaga Rodrigues da Silva, Manuel Ávila Nunes, Manuel Machado da Conceição, António Silveira Bettencourt e Othon Pereira da Silva. 

Esta elite política venceu as eleições municipais de 17 de Junho de 1906 e, sempre presidida por Ribeiro Jr. e com Florêncio Terra na vice-presidência, comandou, de forma notável, os destinos do concelho até Agosto de 1910. Poderia ter saído dela o novo governador civil, mas o presidente do Ministério escolheu um franquista terceirense, precisamente o médico Dr. Manuel António Lino que, curiosamente, só na véspera daquela eleição camarária é que chegou ao Faial. Veio no cruzador português ‘D. Carlos’, e ainda a bordo recebeu os cumprimentos das comissões executivas dos partidos regenerador-liberal e progressista. Como escreve O Telégrafo de 16 de Junho, “foi conduzido a terra na galeota da Alfândega que em tempo serviu para o desembarque de Suas Majestades na ocasião da visita régia, sendo acompanhado pelos srs. Dr. Nestor Xavier de Mesquita, Francisco Pereira Ribeiro Jr., Dr. Eduviges Goulart Prieto, Florêncio Terra, tenente Costa Salema, Francisco Pamplona Corte Real, Alberto Leal, Francisco Leal de Brito e Joaquim Rocha Bettencourt que fazem parte da comissão executiva do partido regenerador-liberal, bem como dos srs. José Garcia do Amaral, administrador do Concelho Augusto Terra, João Machado da Conceição e Manuel Machado da Conceição”. Tomou posse na tarde desse dia, perante “numerosos cavalheiros de todas as cores políticas, amigos pessoais e admiradores de s. ex.ª e empregados daquela e doutras repartições”. Falaram o secretário-geral do Governo Civil, o empossado e o Dr. Eduviges Goulart Prieto que “se congratulou pela acertada nomeação”1 . Pelo mesmo diapasão afinava Florêncio Terra que, dois dias depois, publicava um notável panegírico do Dr. Lino, considerando-o “inteligente”, “ilustrado”, “modesto e recatado”, “nobre de carácter” “valioso médico”, que, apesar de novo, já prestara “serviços relevantes na saúde pública, em especial aquando da peste bubónica do Porto que grassou por todo o País”2 . O artigo de Florêncio Terra vinha aliás na linha do que, a propósito da sua nomeação para governador civil do distrito da Horta, escreviam os jornais terceirenses. Assim, A União, de Angra, não tinha dúvidas de que o Dr. Lino “havia de desempenhá-lo bem” porque tinha “uma nítida compreensão dos deveres de cargos que assume, mas, desinteressado como é, o seu ideal está em concorrer nas suas forças para que aqueles a quem apoia se desempenhem condignamente a bem da administração pública que anda muito descurada”; e “não podendo nem devendo por mais tempo resistir às instâncias do seu chefe político e particular amigo, o presidente de ministros sr. João Franco (…) aquiesceu, enfim, em aceitar (…)”3 . No mesmo sentido, uma local do jornal republicano O Tempo, também da capital terceirense, noticiava que fora “perante as repetidas instâncias” do conselheiro João Franco que ele condescendera em exercer aquelas funções políticas. 

Pródigo em elogios, aquele periódico definia-o como “um sincero que a lama das vielas partidárias não conseguiu até hoje salpicar”4. Acrescente-se que o Dr. Lino foi um dos fundadores do franquismo no distrito de Angra, pois pertenceu à Comissão Executiva Distrital do Partido Regenerador-Liberal organizada naquela cidade em 2 de Março de 1904. Este facto, aliado às suas multímodas capacidades, deve estar na origem da sua escolha para a chefia do distrito da Horta. Tendo chegado na véspera das eleições camarárias - expressivamente ganhas pelos franquistas – o Dr. Lino logo se desdobrou em visitas às principais localidades das quatro ilhas, interessando-se pelas necessidades e aspirações das respectivas populações e, o que é também importante, preparando o terreno para as eleições gerais de deputados de Agosto desse ano de que saiu vitoriosa a coligação de franquistas e progressistas. Em todas as deslocações e nas decisões mais importantes, o governador civil contou sempre com o acompanhamento e a cooperação dos principais dirigentes franquistas do distrito, designadamente de Francisco Pereira Ribeiro Jr. e de Florêncio Terra (que eram também presidente e vice-presidente da Câmara Municipal da Horta) e do administrador do Concelho João Machado da Conceição. Apesar da brevidade do seu mandato, visitou, além das freguesias faialenses, as ilhas do Pico (por quatro vezes) e de Flores e Corvo, sendo sempre alvo de festivas recepções.5  

Por isto, pela boa imprensa que teve e pelas perseguições de que posteriormente foram vítimas os dirigentes franquistas do distrito da Horta – sobretudo os que sempre se mantiveram à frente da Câmara da Horta com o apoio popular e a quem se deve o abastecimento domiciliário de água e da energia eléctrica à cidade – é que não acolhemos a tese de que a demissão do Dr. Lino em Setembro de 1906, decorridos apenas três meses incompletos sobre a sua posse, se tenha ficado a dever a ciladas “da camarilha progressista” ou “às tramas da política local” 6 . Talvez que essa fugaz passagem pela política se tenha revelado “incompatível com o seu carácter”7, e que tenham sido, de facto, “a sua clínica e especialmente a sua enorme dedicação pela família” os “motivos que o levaram a retirar-se para sua casa”, tendo “manifestado que nunca esqueceria as homenagens que lhe dispensara o povo faialense”, (…) “durante os meses em que exerceu com elevado critério e fino tacto o cargo de governador civil deste distrito”.8 

O Dr. Manuel António Lino nasceu a 4 de Janeiro de 1865 na cidade de Angra, filho de Manuel António Lino (Senior) e de Maria Laureana do Carmo Soares, ambos naturais da ilha do Pico. Estudante distinto, concluiu a sua formatura em Medicina na Universidade de Coimbra a 30 de Julho de 1892. Tendo recusado o convite para docente daquele estabelecimento de ensino superior, regressou à Terceira, abrindo consultório de clínica geral e oftalmologia. Médico municipal na Praia da Vitória (1895), e em Angra (1896-1900), delegado de Saúde do distrito de Angra (1900-1919, guarda-mor de Saúde (1919-1926) e inspector de Saúde até 1927, exerceu também o ensino de Química e Ciências Naturais no Liceu de Angra. Dedicou-se ainda à floricultura, à poesia, à pintura, à música e ao teatro, tendo escrito várias operetas e comédias de costumes e traduzido várias peças de dramaturgos estrangeiros. Faleceu na sua cidade natal em 14 de Junho de 1927. A Câmara Municipal de Angra do Heroísmo decidiu homenageá-lo mandando colocar, em 16 de Outubro de 1949, um busto de mármore no Jardim Duque da Terceira que tem a seguinte legenda: “DR. LINO/ 1865-1927 /Cultivou / As Flores/ As Letras / A Música”. 

 

  1 O Telégrafo, 16 Junho 1906

  2 Idem, 18 Junho 1906

  3 A União, 13 Junho 1906

  4 O Tempo 13 Junho 1906

  5 Cf. as edições de O Telégrafo de 28/6, 7/7, 9/7, 14/8  e 1/9 de 1906

  6 Reis Leite, J. Guilherme – Política e Administração nos Açores de 1890 a 1910/O 1º Movimento Autonomista, Ponta Delgada 1995, pp. 199 e 200

  7 Corte Real e Amaral, Dr. Joaquim M. de Sá – O Dr. Manuel António Lino, p. 182, in Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, nº 17, 1959, p. 182

  8 O Telégrafo, 8 Setembro 1906

 

 

 

Ler 995 vezes Modificado em sexta, 14 setembro 2012 09:35
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